Mostrando postagens com marcador Kerry Bolton. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kerry Bolton. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Kerry Bolton - A Política de Lovecraft

por Kerry Bolton



Para muitos de seus admiradores, as coisas mais assustadoras que H.P. Lovecraft escreveu não eram sobre Cthulhu, eram sobre política. Mas, como eu espero demonstrar, a política desse mestre do horror metafísico, irracional, iminente está solidamente fundada na realidade e na razão. Lovecraft, como muitos dos letrados que se voltaram para a política de esquerda ou de direita no início do século XX, estava preocupado com o impacto do capitalismo e da tecnologia na sociedade e na cultura. O reducionismo econômico do capitalismo era simplesmente espelhado no marxismo, ambos sendo emanações do mesmo Zeitgeist materialista moderno.

Começando ao fim do século XIX, um descontentamento penetrante com o materialismo levou a uma busca por uma forma alternativa de sociedade, incluindo fundações alternativas para o socialismo, que ocupou as mentes dos principais socialistas europeus como Georges Sorel. O que emergiu no início do século XX foi variadamente chamado "neo-socialismo" e "planismo", tendo como maiores expoentes Marcel Deat na França e Henri De Man na Bélgica. O neo-socialismo, por sua vez, influenciou a ascensão do fascismo.

Os neo-socialistas temiam primariamente que a abundância material e o ócio prometidos pelo socialismo levariam à decadência e banalidade a não ser que unidas a uma visão hierárquica da cultura e da educação.

Essa era, por exemplo, o foco de A Alma do Homem sob o Socialismo de Oscar Wilde, que visualizava um socialismo individualista que liberava a humanidade da necessidade econômica para buscar a auto-atualização e atividades culturais e espirituais superiores, ainda que essas não consistissem em mais do que contemplar silenciosamente o cosmo.

Tais preocupações não podem ser descartadas como dandismo afeminado. Elas eram partilhadas, por exemplo, pelo famoso político trabalhista neozelandês da era da Crise John A. Lee, um herói de um só braço da Primeira Guerra Mundial que mais do que qualquer outro indivíduo tentou pressionar o governo trabalhista de 1935 a manter suas promessas eleitorais em relação aos bancos e ao crédito público. Nas palavras de Lee:

"Joe Savage...vê o socialismo como pilhas de bens razoavelmente bem distribuídos e trabalho equitativamente dividido. Eu tenho certeza que ele nunca o vê como a oportunidade de jogar futebol, se bronzear na praia, dançar foxtrot, deixar sob a sombra de árvores, desfrutar da intoxicação do verso, o perfume de flores, as alegrias de um livro, a emoção da música".

Lee visualizava uma forma de socialismo que não estava primariamente dirigida a "pilhas de bens e trabalho equitativamente distribuídos" como um fim em si mesmo, mas como meio de alcançar níveis superiores de ser.

Essas preocupações neo-socialistas também eram partilhadas pelos fascistas e Nacional-Socialistas. Combatendo os efeitos enervadores e niveladores da riqueza e do ócio, e edificando os caráteres e gostos das massas eram os objetivos doDopolavoro na Itália Fascista e do Kraft Durch Freude na Alemanha Nacional-Socialista, independentemente do quanto isso possa ser inquietante para os socialistas de esquerda.

Enquanto parece improvável que Lovecraft tivesse consciência desse tumulto ideológico no socialismo europeu, ele chegou a conclusões similares em algumas áreas centrais.

Lovecraft, como outros escritores que rejeitaram o marxismo, considerava tanto a democracia como o comunismo "falaciosos para a civilização ocidental". Ao invés, Lovecraft favorecia:

"...um tipo de fascismo que possa, enquanto ajuda as massas perigosas às custas dos desnecessariamente ricos, não obstante preservar o essencial da civilização tradicional e deixar o poder político nas mãos de uma classe governante pequena e cultivada (mas não excessivamente rica) majoritariamente hereditária, porém sujeita a uma ampliação gradual conforme outros indivíduos ascendam a seu nível cultural"


Lovecraft temia que o socialismo, como o capitalismo, pavimentaria o caminho para a proletarização universal e consequente nivelamento da cultura. Assim ele propunha ao invés o pleo emprego e o encurtamento do dia de trabalho pela mecanização sob a orientação cultural de um regime fascista-socialista aristocrático.

Isso novamente era provavelmente um intuição perceptiva a que Lovecraft chegou de forma independente, mas era de modo geral parte do novo pensamento econômico à época. Na Inglaterra, a revista socialista fabiana, The New Age, editada pelo socialista de guilda A. R. Orage, se tornou um fórum para discutir a teoria do "Crédito Social" do major C. H. Douglas, que era proposta como uma alternativa ao sistema financeiro de dívida, com a emissão de um "crédito social" para todos os cidadãos através de um "Dividendo Nacional" permitindo que o valor total da produção seja consumido. Eles também objetivavam promover a mecanização para reduzir as horas de trabalho e aumentar o tempo de ócio, que eles pensavam poder conduzir a um florescimento da cultura. (Essas idéias tem relevância renovada na medida em que o dia de trabalho de oito horas, a dura conquista dos primórdios do movimento trabalhista, está perdendo terreno).

Tanto Ezra Pound como o poeta neozelandês Rex Fairburn eram defensores do Crédito Social porque eles julgavam ser este o melhor sistema econômico para as artes e a cultura.

Lovecraft estava preocupado com a eliminação das causas da revolução social, e ele defendia a limitação da vasta acumulação de riqueza, ao mesmo tempo reconhecendo a necessidade de manter disparidades de renda baseadas no mérito. Sua preocupação era a eliminação dos "oligarcas comerciais", o que em termos práticos era o propósito do Crédito Social e dos neo-socialistas.

Ao mesmo tempo que considerava como o objetivo primário de uma nação o desenvolvimento de altos níveis estéticos e intelectuais, Lovecraft reconhecia que tal sociedade deve se basear na organização social tradicional de "ordem, coragem e resistência", sua definição de civilização sendo o de um organismo social devotado a um "objetivo qualitativo superior" mantido pelo ethos supramencionado.

Lovecraft pensava que a ordem social hierárquica mais adequada para as praticidades da nova era da máquina era uma "fascista". O "estímulo demanda-oferta" substituiria o estímulo de lucro em uma economia dirigida pelo Estado que reduziria as horas de trabalho e aumentaria as horas de ócio. O cidadão poderia então ser elevado culturalmente e intelectualmente tão longe quanto suas habilidades inatas permitissem, "de modo que esse ócio será o de uma pessoa civilizada ao invés do de um tolo frequentador de cinemas, salões de dança e mesas de sinuca".

Lovecraft não via sabedoria no sufrágio universal. Ele defendia um tipo de neo-aristocracia ou meritocracia, com direito a voto e ocupação de cargos públicos "extremamente restrito". Uma civilização tecnológica especializada havia tornado o sufrágio universal "uma zombaria e uma troça". Ele escreveu que, "as pessoas não possuem geralmente a perspicácia para dirigir uma civilização tecnológica efetivamente". Esse princípio antidemocrático Lovecraft mantinha como verdadeiro independentemente de posição social ou econômica, fosse como trabalhador braçal ou como acadêmico.

O voto desinformado sobre o qual a democracia se apoia, Lovecraft escreveu, "é motivo de gargalhadas cósmicas tumultuosas". A participação universal significava que o desqualificado, geralmente representando algum "interesse oculto", assumiria o cargo com base em ter "a língua mais escorregadia" e "os slogans mais chamativos".

Sua referência a "interesses ocultos" só pode se referir a sua compreensão da natureza oligárquica da democracia. Isso teria que ser substituído por "um governo fascista racional", onde o cargo demandaria um teste de conhecimento de economia, história, sociologia e administração, ainda que todos - com a exceção de estrangeiros não-assimiláveis - teriam a oportunidade de se qualificarem.

Um ano após Mussolini tomar o poder em 1922 Lovecraft escreveu que, "a democracia é um falso ídolo - um mero slogan e uma ilusão de classes inferiores, visionários e civilizações agonizantes". Ele viu na Itália Fascista "o tipo de controle social e político autoritário que é o único capaz de produzir coisas que tornam a vida digna de ser vivida".

É também por isso que Ezra Pound admirava a Itália fascista, escrevendo "Mussolini disse a seu povo que a poesia é uma necessidade para o Estado". E: "Eu não acredito que qualquer estimativa de Mussolini será válida a não ser que parta de sua paixão pela construção. Trate-o como artifex e todos os detalhes se encaixam. Tome-o como qualquer coisa além de um artista e você se perderá nas contradições".

Tais figuras como Pound, Marinetti e Lovecraft viam o fascismo como um movimento que poderia com sucesso subordinar a civilização moderna tecnológica à alta arte e cultura, liberando as massas de uma cultura popular commoditizada crua e brutalizante.

Lovecraft pensava que o cosmos era indiferente à humanidade e conclui que o único sentido da existência humana era atingir níveis cada vez mais altos de desenvolvimento mental e estético. O que Sir Oswald Mosley chamava atualização aFormas Superiores em seu pensamento no pós-guerra, e o que Nietzsche chamava de objetivo do Homem Superior e doSuper-Homem, não poderia ser alcançado através dos "baixos padrões culturais de uma maioria subdesenvolvidas. Tal civilização de mero trabalhar, comer, beber, procriar e vagamente vagabundear ou brincar não é digna de ser mantida". É uma forma de morte que se arrasta e é particularmente dolorosa para a elite cultural.

Lovecraft era bastante influenciado por Nietzsche e Oswald Spengler. Ele reconhecia a natureza cíclica orgânica de nascimento, juventude, maturidade, senilidade e morte culturais como a base da história da ascensão e queda de civilizações. Assim a crise trazida à civilização ocidental pela era das máquinas não era única. Lovecraft cita O Declínio do Ocidente de Spengler como suporte para sua visão de que a civilização havia alcançado o ciclo de "senilidade".

Lovecraft via o declínio cultural como um lento processo que abarca 500 a 1000 anos. Ele buscava um sistema que poderia superar as leis cíclicas de decadência, o que era também a motivação do fascismo. Lovecraft acreditava ser possível restabelecer um novo "equilíbrio" ao longo do 50 a 100 anos, afirmando: "Não há necessidade de se preocupar com a civilização desde que a linguagem e a tradição artística geral sobrevivam". A tradição cultural deve ser mantida acima e além das mudanças econômicas.

Em 1915, Lovecraft estabeleceu sua própria revista política chamada O Conservador, que foi lançada por 13 edições até 1923. O foco da revista era defender altos padrões culturais, particularmente no campo das Letras, mas também se opunha ao pacifismo, ao anarquismo, e ao socialismo e apoiava um "militarismo moderado e sadio" e o "pan-saxonismo", significando que "a dominação do inglês e raças aparentadas sobre as divisões inferiores da humanidade".

Como os neo-socialistas na Europa, Lovecraft se opunha à concepção materialista da história como sendo igualmente burguesa e marxista. Ele via o comunismo como "destruindo o gosto pela vida" em prol de uma teoria. Rejeitando o determinismo econômico como o motivo primário da história, ele via "aristocratas naturais" emergindo de todos os setores de uma população independentemente de status econômico. O objetivo de uma sociedade era substituir "a excelência pessoal por aquela de uma posição econômica" que é, apesar da oposição declarada de Lovecraft ao "socialismo", não obstante essencialmente o mesmo que o "socialismo ético" proposto por Henri De Man, Marcel Deat, et al. Lovecraft via o fascismo como a tentativa de alcançar essa forma de aristocracia no contexto da sociedade industrial e tecnológica moderna.

Lovecraft via a busca da "igualdade" como uma razão destrutiva para uma "revolta atávica" contra a civilização por aqueles que se sentem desconfortáveis com cultura. O mesmo motivo era a raiz do bolchevismo, da Revolução Francesa, o culto de "volta à natureza" de Rousseau, e os racionalistas do século XVIII. Lovecraft via que a mesma revolta estava sendo assumida por "raças atrasadas" sob a liderança dos bolcheviques.

Essas visões são claramente nietzscheanas, mas elas ainda mais especificamente se assemelham as de A Revolta Contra a Civilização: A Ameaça do Sub-Humano, pelo então popular autor Lothrop Stoddard, cuja obra teria certamente atraído Lovecraft, com sua preocupação pela manutenção e renascimento da civilização e rejeição de credos niveladores.

Ainda que Lovecraft rejeitasse o igualitarismo, ele não defendia uma tirana que reprimisse as massas em benefício dos poucos. Ao invés, ele via o governo de uma elite como meio necessário para alcançar os objetivos superiores de atualização cultural. Lovecraft desejava ver a elevação do maior número possível. Lovecraft também rejeitava divisões de classe como "cruéis", seja emanando do proletariado ou da aristocracia. "Classes são algo de que devemos nos livrar ou minimizar - e não algo a ser oficialmente reconhecido". Lovecraft propunha substituir a luta de classes por um estado integral que refletisse a "corrente cultural geral". Entre o indivíduo e o Estado haveria uma lealdade de mão dupla.

Lovecraft considerava o pacifismo como uma "evasão e ar quente idealista". Ele declarou o internacionalismo "uma ilusão e mito". Ele via a Liga das Nações como uma "ópera cômica". As guerras são uma constante na história e para elas devem se preparar pela conscrição universal. Historicamente, a guerra havia fortalecido a "fibra nacional", mas a guerra mecanizada havia negado o processo; na verdade a destruição tecnológica em massa da Primeira Guerra Mundial era amplamente reconhecida como disgênica. Não obstante, o europeu, e especificamente o anglo-saxão, deve manter sua supremacia pelo poder de fogo, pois "a bala de um adversário é mais doce que o chicote de um mestre". Porém, como se deve esperar de um antimaterialista, Lovecraft repudiava a causa moderna típica da guerra, aquela de lutar por supremacia mercantil, "a defesa de sua própria terra e raça sendo o objetivo adequado do armamento".

Lovecraft via a representação judaica nas artes como responsável pelo que Francis Parker Yockey chamaria de "distorção cultural". A cidade de Nova Iorque havia sido "completamente semitizada" e perdida para o "tecido nacional". A influência semítica na literatura, teatro, finanças e propaganda criaram uma cultural e ideologia artificiais "radicalmente hostis à atitude viril americana". Como Yockey, Lovecraft via a Questão Judaica como uma questão de uma "tradição cultural antagonista" mais do que como uma diferença de raça. Assim os judeus poderiam teoricamente ser assimilados a uma tradição cultural americana. O problema do negro, porém, era um de biologia e deve ser reconhecido pela manutenção de uma "linha de cor absoluta".

Esse breve esboço é suficiente, eu penso, para demonstrar que Lovecraft pertence a uma ilustre lista de gênios criativos do século XX - incluindo W. B. Yeats, Ezra Pound, D. H. Lawrence, Knut Hamsun, Henry Williamson, Wyndham Lewis e Yukio Mishima - cuja rejeição do materialismo, igualitarismo e decadência cultural os fez buscar por uma alternativa hierárquica vital tanto ao capitalismo como ao comunismo, uma busca que os levou a considerar e abraçar idéias protofascistas, fascistas ou nacional-socialistas.

Fonte: Legio Victrix

sábado, 25 de outubro de 2014

Kerry Bolton - Marx Contra Marx: Uma Crítica Tradicionalista Conservadora do Manifesto Comunista

por Kerry Bolton




Há muita coisa no Manifesto Comunista que é válida desde uma perspectiva tradicionalista/conservadora. Marx foi um produto do "espírito" de sua Era, ou zeitgeist. Esse zeitgeist oitocentista permanece o mesmo hoje. Assim, Marx fornece um insight no materialismo, ou o que poderia também ser chamado determinismo econômico, que continuou a ser o ethos dominante do século XX e do atual. Como Oswald Spengler apontou, o marxismo não busca transcender o espírito do Capital, mas expropriá-lo. A perspectiva fundamental de um marxista ou de um CEO corporativo globalista é a mesma. Este artigo examina a análise marxista do que hoje é chamado "globalização", mas o faz sob uma perspectiva conservadora.

O método de análise histórica de Marx era o da dialética: tese, antítese e síntese. Sua atitude frente ao capitalismo como parte necessária da dialética histórica precisa ser compreendida sobre essa base. Não é necessário ser um marxista para apreciar a dialética como método válido de interpretação histórica, e Marx de fato repudiou Hegel, o mais conhecido dos teóricos dialéticos, por causa da abordagem metafísica de Hegel. Em contradistinção, o método de Marx é chamado "materialismo dialético".

Dialeticamente, a antítese, ou "negação" como Hegel a teria chamado, do marxismo é o "reacionismo", para usar o próprio termo de Marx, e se for aplicada uma análise dialética aos argumentos fundamentais do Manifesto Comunista uma metodologia prática para a sociologia da história de uma perspectiva "reacionista" emerge.

Conservadorismo e Socialismo

Pelo menos nos países anglófonos há uma dicotomia nebulosa em relação a Esquerda e Direita, particularmente entre especialistas da mídia e acadêmicos. O que é normalmente chamado "Nova Direita" ou "Direita" no mundo anglófono é mais precisamente identificável com o Liberalismo Whig. O filósofo conservador inglês Anthony Ludovici sucintamente definiu a dicotomia histórica, ao invés de comunalidade, entre Toryismo e Liberalismo Whig, quando discutindo a saúde e vigor da população rural em contraste à urbana:

"...E não é assombroso portanto que quando o tempo da Grande Rebelião, a primeira grande divisão nacional, ocorreu por uma grande questão política, o Partido Tory-Rural-Agrícola deveria ter se mobilizado em proteção e defesa da Coroa, cotra o Partido Whig-Urbano-Comercial. Verdade, Tory e Whig, como a designação dos dois principais partidos no Estado, ainda não eram conhecidas; mas nos dois lados que se digladiavam sobre a pessoa do Rei, o temperamento e objetivos desses partidos já eram discerníveis com clareza.

Carlos I, como eu apontei, foi provavelmente o primeiro Tory, e o maior conservador. Ele acreditava em garantir a liberdade pessoal e a felicidade do povo. Ele protegeu o povo não só contra a rapacidade dos empregadores no comércio e na manufatura, mas também contra a opressão dos poderosos e grandes".

Foi a ordem tradicional, com a Coroa no ápice da hierarquia, que resistiu aos valores monetários da revolução burguesa, manifesta pela primeira vez na Inglaterra, e então na França e por muito do resto da Europa do século XIX. O mundo permanece sob a influência dessas revoluções, como o faz ainda sub a Reforma que forneceu à burguesia uma sanção religiosa. Essas Revoluções foram parte da dialética histórica que Marx via como necessária na marcha rumo ao comunismo.

Como Ludovici apontou, pelo menos na Inglaterra, e portanto como uma herança mais ampla das nações anglófonas, a Direita e os Liberais "Livre-Mercadistas" emergiram não só como adversários ideológicos, mas como soldados em um conflito sangrento durante o século XVII. O mesmo conflito sangrento se manifestou nos EUA na guerra entre o Norte e o Sul, a União representando no sentido político inglês o puritanismo e os interesses plutocráticos concomitantes; o Sul, um renascimento da Tradição da Cavalaria, o ruralismo e o ethos aristocrático. Era assim, pelo menos, que o Sul percebia o seu conflito e estava agudamente consciente dessa tradição. Daí, quando em 1863 o Secretário Confederado de Estado Judah P. Benjamin foi questionado por idéias para um Selo nacional dos Estados Confederados da América, ele sugeriu "um cavaleiro" baseado na estátua equestre de Washington na Praça do Capitólio em Richmond e afirmou:

"Faria honra justa ao nosso povo. A figura do cavaleiro é típica do cavalheirismo, da bravura, da generosidade, da humanidade, e de outras virtudes da cavalaria. Cavalier é sinônimo de 'gentil-homem' em quase todas as línguas modernas... a palavra é eminentemente sugestiva da origem da sociedade sulista como usada em distinção à puritana. Os sulistas permanecem o que seus ancestrais foram, cavalheiros".

Esse é o fundamento histórico pelo qual, para a indignação de Marx, os resquícios das classes governantes tradicionais buscavam uma solidariedade anticapitalista com os camponeses e artesões crescentemente proletarizados e urbanizados. Para Marx, tal "reacionismo" era uma interferência no processo dialético ou na "roda da história".

O filósofo-historiador conservador Oswald Spengler era intrinsecamente anticapitalista. Ele e outros conservadores viam no capitalismo e na ascensão da burguesia o agente da destruição das bases da ordem tradicional, assim como Marx. Quase nada disso é compreendido pelos conservadores hoje, especialmente no mundo anglófono, onde o conservadorismo é geralmente considerado como uma defesa do capitalismo, que é também equiparado com "propriedade privada", apesar das tendências centralizantes que Marx previu - com razão.

O marxismo, crescendo a partir do mesmo zeitgeist que o capitalismo inglês em meio a revolução industrial, procede do mesmo ethos. Marx escolheu a escola inglesa de economia, e desprezou a escola alemã, de orientação conservadoria-protecionista. Spengler notou que:

"Marx era assim um pensador exclusivamente inglês. Seu sistema biclasse deriva da situação de um povo mercantil que sacrificou sua agricultura ao grande capital, e que nunca havia possuído um corpo de servidores civis com uma consciência estatal pronunciada, prussiana. Na Inglaterra havia apenas 'burguesia e proletariado', agentes ativos e passivos nas questões empresariais, ladrões e roubados - todo o sistema era bastante viking. Transferidos para o âmbito dos ideais políticos prussianos, esses conceitos não fazem sentido".

Spengler em Declínio do Ocidente afirma que no ciclo tardio de uma Civilização há uma reação contra o domínio do dinheiro, que derruba a plutocracia e restaura a tradição. É um conflito final na Civilização Tardia do que ele chama "sangue contra dinheiro":

"...Se chamamos a esses poderes financeiros de 'Capitalismo', então nós podemos designar como socialismo a vontade de chamar à vida uma poderosa ordem político-econômica que transcende todos os interesses de classe, um sistema de consciência elevada e senso de dever que mantém a totalidade em boas condições para a batalha decisiva de sua história, e essa batalha é também a batalha do dinheiro e da lei. Os poderes privados da economia querem caminhos livros para sua aquisição de grandes recursos..."

Em uma nota de rodapé ao trecho acima Spengler lembra os leitores em relação ao "capitalismo" que, "nesse sentido a política de interesses dos movimentos de trabalhadores também pertencem a ele, na medida em que seu objetivo não é a superação dos valores monetários, mas a sua posse".

O conceito "prussiano" de "socialismo" pode ser resumido em um de serviço ao interesse comum, acima dos interesses seccionais: "organização, disciplina, cooperação. Todas as coisas que são independentes de qualquer classe singular". Spengler afirma que Marx tomou essas características externas do que é essencialmente uma idéia ética, e os tornou instrumentos de uma luta de classes, como uma doutrina para o saque.

Enquanto Spengler era motivado pelo "espírito prussiano" da disciplina e do dever, em distinção ao individualismo inglês, que ele via no programa marxista, havia aqueles na Inglaterra que também buscavam uma alternativa ao ethos monetário tanto do capitalismo como do marxismo, e doutrinas como o Crédito Social, o Distributismo e o Socialismo de Guildas, muitas vezes em aliança e centrados ao redor do milieu de A.R. Orage e sua revista The New Age, emergiram e chamaram a atenção de Ezra Pound, T.S. Eliot, Hillaire Belloc, G.K. Chesterton e o poeta neozelandês Rex Fairburn.

Casta & Classe

O "conservadorismo revolucionário" de Spengler et al é predicado no reconhecimento do caráter eterno de valores centrais e instituições que refletem o ciclo - ou morfologia - de culturas no que Spengler chamou de sua época da "Primavera". Um exemplo dessa diferença em ethos entre ciclos tradicionais ("Primavera") e modernos ("Inverno") de uma civilização é visto em manifestações como a casta, como um reflexo espiritualmente fundado das relações sociais, em distinção à classe como entidade econômica; ou profissão como dever social de proveniência divina representada pela corporação de ofícios, como distinta de ser um enfado econômico representado pelos sindicatos (incluindo associações de empregadores) como instrumentos de divisão de classe. A ordem tradicional representa o ethos espiritual e cultural; a época "moderna", o dinheiro, algo reiterado por Spengler em nosso próprio tempo. Os livros sagrados de muitas culturas dizem muito do mesmo, e se poderia apontar para o Livro das Revelações.


O Mito do "Progresso"

Enquanto a Civilização Ocidental se orgulha de ser o epítome do "progresso" através de sua atividade econômica, ela é baseada na ilusão de uma evolução darwiniana linear do "primitivo" ao "moderno". Talvez algumas palavras mais sucintamente expressem a antítese entre as percepções modernista e conservadora tradicional da vida do que o otimismo vivaz do darwinista oitocentista Dr. A.R. Wallace em seu O Século Maravilhoso (1898):

"Não só nosso século é superior a qualquer um que já tenha passado mas...ele pode ser comparado melhor com todo o período histórico precedente. Deve ser assim sustentado que ele constitui o início de uma nova era de progresso humano... Nós homens do século XIX não temos sido lentos em elogiá-lo. O sábio e o tolo, o erudito e o ignaro, o poeta e o jornalista, o rico e o pobre, todos incham o coro de admiração pelas invenções e descobertas maravilhosas de nossa própria era, e especialmente por aquelas inúmeras aplicações da ciência que agora fazem parte de nossa vida quotidiana, e que nos lembram a cada hora de nossa imensa superioridade sobre nossos comparativamente ignorantes ancestrais".

Como a crença de Marx de que o comunismo é o último modo de vida humana, o capitalismo possui a mesma crença. Em ambas visões-de-mundo não há nada além de mais "progresso" de natureza técnica. Ambas doutrinas representam o "fim da história". O tradicionalista, porém, vê a história não como uma linha reta do "primitivo ao moderno" mas como um contínuo fluir, de ondas históricas cósmicas, ou ciclos. Enquanto a "roda da história" de Marx se move para a frente atropelando toda tradição e herança até se deter eternamente em um muro cinzento de concreto e aço, a "roda da história" tradicionalista revolve em um ciclo em um eixo estável, até o momento em que o eixo apodrece - a não ser que esteja suficientemente lubrificado ou seja substituído na hora certa - e os raios caem; para ser substituída por outra "roda da história".

Dentro do contexto ocidental, as revoluções de 1642, 1789 e 1848, ainda que em nome do "povo", buscaram dar poder ao mercador sobre as ruínas do Trono e da Igreja. Spengler escreve sobre esta última era que na Inglaterra, "...a doutrina do Livre Comércio da Escola de Manchester foi aplicada pelas corporações de ofício à forma de bens chamada 'trabalho', e eventualmente receberam formulação teórica no Manifesto Comunista de Marx e Engels. E assim foi completado o destronamento da política pela economia, do Estado pelo banco..."

Spengler chama os tipos marxianos de socialismo de "capitalistas" porque eles não objetivam substituir os valores fundados no dinheiro, "mas possuí-los". Ele afirma do marxismo que ele não é "nada além de um capanga confiável do Grande Capital, que sabe perfeitamente bem como fazer uso dele". Ainda:

"Os conceitos de liberalismo e socialismo são postos em movimento apenas pelo dinheiro. Foram os Equites, o partido do dinheiro, que tornou o movimento popular de Tiberius Gracchus possível; e assim que a parte das reformas que lhes era vantajosa havia sido legalizada com sucesso, eles se retiraram e o movimento entrou em colapso.

Não há movimento proletário, ou mesmo comunista, que não haja operado nos interesses do dinheiro, nas direções indicadas pelo dinheiro, e pelo tempo permitido pelo dinheiro - e isso sem os idealistas entre seus líderes terem a menor suspeita do fato"

É essa identidade de espírito entre capitalismo e marxismo que muitas vezes se tem manifesto no subsídio de movimentos "revolucionários" pela plutocracia. Alguns plutocratas são capazes de discernir que o marxismo e movimentos similares "do povo", são de fato instrumentos úteis para a destruição de sociedades tradicionais e estorvos para a maximização global de lucros. O Duque de Orleans buscava usar "o povo" para os mesmos propósitos na França durante o século XVIII.

O Capitalismo na Dialética Marxista

Enquanto o que é muitas vezes suposto ser "Conservadorismo" é defendido por seus aderentes como o custódio do "livre comércio", que por sua vez é tornado sinônimo de "liberdade", Marx compreendeu o caráter subversivo do Livre Comércio, que é qualquer coisa além de uma tendência conservadora. Spengler cita a posição de Marx em relação ao Livre Comércio expressa em 1847:

"Geralmente falando, o sistema protecionista de hoje é conservador, enquanto o sistema de livre comércio possui um efeito destrutivo. Ele destrói as nacionalidades e torna os contrastes entre proletariado e burguesia mais agudos. Em uma palavra, o sistema de livre comércio precipita a revolução social. E apenas nesse sentido revolucionário eu voto favoravelmente pelo Livre Comércio".

Para Marx, o capitalismo era parte de um processo dialético inexorável que, como na visão progressiva-linear da história, vê a humanidade ascendendo do comunismo primitivo, através do feudalismo, do capitalismo, do socialismo e finalmente - como o fim da história - a um mundo milenarista do comunismo. Ao longo desse desdobramento dialético progressivo a força impulsora da história é a luta de classes pela primazia dos interesses econômicos seccionais. No reducionismo econômico marxiano, a história é relegada à luta:

"[uma luta entre] homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de guilda e aprendiz, em uma palavra, opressor e oprimido...em constante oposição um ao outro, travada ininterruptamente, agora oculta, agora aberta, uma luta que a cada vez terminou, ou em uma reconstituição revolucionária da sociedade em geral, ou na ruína comum das classes em confronto".

Marx corretamente descreve a destruição da sociedade tradicional como intrínseca ao capitalismo, e segue para descrever o que hoje chamamos "globalização". Aqueles que defendem o Livre Comércio enquanto ao mesmo tempo chamam a si mesmos conservadores poderiam querer considerar o motivo pelo qual Marx apoiava o Livre Comércio e o descrevia tanto como "destrutivo" e "revolucionário". Marx o via como ingrediente necessário do processo dialético que está impondo a padronização universal; que é também o objetivo do comunismo.

Marx ao descrever o papel dialético do capitalismo, afirma que onde quer que a "burguesia adquiriu a predominância ela pôs um fim a todas as relações feudais, patriarcais e idílicas". A burguesia ou o que poderíamos chamar de classe mercantil - a qual é atribuída uma posição subordinada nas sociedades tradicionais, mas assume dominância sob o "modernismo" - "tem impiedosamente arrasado" os laços feudais, e "não tem deixado qualquer outro nexo entre homem e homem do que o egoísmo nu", e o "indiferente pagamento em dinheiro". Ele, entre outras coisas, "afogou" a religiosidade e o cavalheirismo "nas águas gélidas dos cálculos egoístas". "Ele resolveu o valor pessoal em valor de troca, e no lugar das inumeráveis liberdades irrevogáveis, estabeleceu aquela única liberdade desarrazoada - o Livre Comércio". Onde o conservador de discernimento se situa em oposição à análise marxiana do capitalismo é onde Marx considera o processo inexorável e desejável.

Marx condenava a oposição a esse processo dialético como "reacionária". Marx estava aqui defendendo comunistas contra as acusações dos "reacionários" de que seu sistema resultaria na destruição da família tradicional, e relegaria as profissões a mero "trabalho assalariado", afirmando que isso já estava sendo feito pelo capitalismo de qualquer jeito e que, portanto, não era um processo a ser resistido - o que seria "Reacionismo" - mas saudado como fase necessário na caminhada rumo ao comunismo.



Tendências Universalizantes

Marx via a necessidade constante de revolucionar os instrumentos de produção como inevitável sob o capitalismo, e isso por sua vez punha a sociedade em um contínuo estado de fluxo, de "incerteza e agitação duradouras", que distingue a "época burguesa de todas as outras". A "necessidade para uma constante expansão do mercado" significa que o capitalismo se espalha globalmente, e portanto dá um "caráter cosmopolita" a "modos de produção e consumo em cada país". Isso na dialética marxista é uma parte necessária da destruição das fronteiras nacionais e culturas distintas como prelúdio para o socialismo mundial. É o capitalismo quem estabelece a base para o internacionalismo. Portanto, quando o marxista clama contra a "globalização" ele o faz como retórica na defesa de uma agenda política; não por uma oposição ética ao globalismo enquanto tal.

A esse processo capitalista internacionalizante Marx identifica os oponentes não como revolucionários, mas como "reacionistas". Os reacionários ficam horrorizados com o fato de indústrias nacionais e locais estarem sendo destruídas, a autossuficiência estar sendo solapada, e "nós temos...uma interdependência universal de nações". Similarmente na esfera cultural, onde "literaturas nacionais e locais" são deslocadas por "uma literatura mundial". O resultado é uma cultura econômica global, e mesmo um humano global, apartado de todos os laços geográficos e culturais, como enaltecido por apologistas da globalização como G. Pascal Zachary. Um tipo de nômade emerge que serve aos interesses de uma economia internacional onde quer que ele seja necessário.

Com esse revolucionamento e padronização dos meios de produção vem uma perda do sentido de ser parte de um ofício ou profissão, ou "vocação". A obsessão com o trabalho se torna um fim em si mesmo, o qual deixa de fornecer um significado superior pelo fato de se reduzir a uma mera função econômica. Em relação à ruína da ordem tradicional pelo triunfo da "burguesia", Marx disse o seguinte:

"Devido ao uso extensivo de maquinário e à divisão do trabalho, o trabalho dos proletários perdeu todo caráter individual, e, consequentemente, todo encanto para o trabalhador. Ele se torna um apêndice da máquina, e é apenas a habilidade mais simples, monótona e facilmente adquirida, que é demandada dele..."

Enquanto as corporações clássicas e as guildas medievais preenchiam um papel que era metafísico e cultural em termos da própria profissão, estes foram substituídos pelos sindicatos e associações patronais como nada além de instrumentos de competição econômica. A totalidade da civilização ocidental, e singularmente, muito do resto do mundo, por causa do processo de globalização, se tornou uma expressão de valores monetários. Porém, a preocupação com o PIB - geralmente a única preocupação da politicagem de urnas - não pode ser um substituto para valores humanos mais profundos. Daí é amplamente percebido que aqueles entre os ricos não são necessariamente o que estão realizados, e o afluente muitas vezes existe em um vácuo, com um anseio indefinido que pode ser preenchido com drogas, álcool, divórcio e suicídio. O ganho material não se iguala com o que Jung chama "individuação". De fato, a preocupação com acúmulo material, seja sob capitalismo ou sob o marxismo, encadeia o homem ao mais baixo nível da existência animalista.

A Megalópole

De interesse particular é que Marx escreve da maneira pela qual a base rural da ordem tradicional sucumbe à urbanização e industrialização, que é o que formou o "proletariado", a massa desenraizada que é defendida pelo socialismo como o ideal e não como uma aberração corrupta do camponês e do artesão. As sociedades tradicionais são literalmente enraizadas no solo, com um senso de continuidade através das gerações. Sob o capitalismo a vida campesina e a vida localizada, são, como disse Marx, tornadas ultrapassadas pela cidade e pela produção em massa. Marx se referiu ao campo sendo sujeito ao "domínio das cidades". Era um fenômeno - a ascensão da Cidade concomitante com a ascensão do comerciante - que Spengler afirma como sintoma da decadência de uma Civilização em sua fase estéril, onde valores monetários imperam.

Marx escreve que o que foi criado foram "cidades enormes"; o que Spengler chama "Megalopolitismo". Novamente, o que distingue Marx em sua análise do capitalismo dos tradicionalistas conservadores, é que ele saúda esse caráter destrutivo do capitalismo. Quando Marx escreve sobre urbanização e da alienação do antigo campesinato e artesãos por sua proletarianização nas cidades, se tornando engrenagens no processo de produção em massa, ele se refere a isso não como a um processo a ser resistido, mas como inexorável e tendo "resgatado parte considerável da população da idiotice da vida rural".

"Reacionismo"

Marx aponta no Manifesto Comunista que os "reacionistas" veem com "grande desapontamento" os processos dialéticos do capitalismo. O reacionário ou conservador no sentido tradicional, é anticapitalista par excellence, porque ele está acima e além do zeitgeist do qual tanto capitalismo como marxismo emergiram, e ele rejeitam na totalidade o reducionismo econômico em que ambos são fundados. Assim a palavra "reacionário", usualmente usada em sentido derrogativo, pode ser aceita pelo conservador como um termo preciso para o que é necessário para uma renascença cultural, ética e espiritual.

Marx condenava a resistência ao processo dialético como "reacionista", e identificava o conservadorismo como a força real em revolta contra o espírito mercantil:

"A classe média baixa, o pequeno manufatureiro, o lojista, o artesão, o camponês. Todos esses lutam contra a burguesia, para salvar da extinção sua existência como frações da classe média. Eles são, portanto, não revolucionários, mas conservadores. Não, mais, eles são reacionários, pois eles tentam reverter a roda da história. Se por acaso eles são revolucionários, eles o são apenas em vistas de sua transferência iminente para o proletariado, eles assim defendem não seu presente, mas seus interesses futuros, eles desertam assim de seu próprio ponto de vista para se situarem no do proletariado".

Essa chamada "classe média baixa" está portanto inexoravelmente condenada ao purgatório da despossessão proletária até o tempo em que reconheça seu papel histórico como classe revolucionária, e "exproprie os expropriadores". Essa "classe média baixa" pode ou emergir do purgatório se juntando as fileiras do povo escolhido proletário, se tornando parte da revolução socialista e ingressando em um novo milênio, ou ela pode descer de seu purgatório de classe, se insistir em tentar manter a ordem tradicional, e ser relegada ao esquecimento, que pode ser acelerado pelos pelotões de fuzilamento do bolchevismo.

Marx devota a seção três de seu Manifesto Comunista a um repudio do "socialismo reacionário". Ele condena o "socialismo feudal" que emergiu entre os velhos remanescentes da aristocracia, que buscava unir forças com a "classe trabalhadora" contra a burguesia. Marx afirma que a aristocracia, ao tentar reafirmar sua posição pré-burguesa, havia na verdade perdido de vistas seus interesses de classe ao ter que se aliar com o proletariado. Isso não faz sentido. Uma aliança das profissões despossuídas no que se tornou o proletariado, com a cada vez mais despossuída aristocracia, é uma aliança orgânica, que encontra seus inimigos tanto no marxismo como no mercantilismo. Marx se enfurecia contra a aliança emergente entre a aristocracia e aquelas profissões despossuídas que resistiam a proletarização. Daí, Marx condena o "socialismo feudal" como "parte eco do passado, parte ameaça do futuro". Era um movimento que desfrutava de apoio significativo entre os artesãos, o clero, os nobres e letrados na Alemanha em 1848, que repudiavam o livre mercado que havia divorciado o indivíduo da Igreja, do Estado e da comunidade, "e posto o egoísmo e o interesse próprio antes da subordinação, da comunalidade e da solidariedade social" (isto é, os elementos do que Spengler definiria como "Socialismo Prussiano"). Em relação a esses "reacionistas", Max Beer, um historiador do socialismo alemão, afirmou o seguinte:

"A era moderna parecia a eles ser construída sobre areia movediça, ser caos, anarquia, ou uma explosão completamente imoral e profana de forças intelectuais e econômicas, que deve inevitavelmente levar a agudos antagonismos sociais, a extremos de riqueza e pobreza, e à tormenta universal. Nesse visão, a Idade Média, com sua firme ordem na Igreja, na vida social e econômica, sua fé em Deus, suas instituições feudais, seus claustros, suas associações autônomas e guildas pareciam a esses pensadores como um edifício bem construído..."

É exatamente tal aliança de todas as classes - outrora veementemente condenada por Marx como "reacionista" - que é necessária para se resistir aos fenômenos subversivos comuns do Livre Comércio e da revolução. Algo do tipo foi visto novamente, como mencionado antes, nas doutrinas pós-Primeira Guerra do Distributismo, do Crédito Social e do Socialismo de Guilda, os primeiros dois pelo menos, tendo recebido ímpeto por encíclicas papais, que viam o perigo do marxismo como subproduto dos excessos do capitalismo, e ambos como formas de materialismo levando a um mundo desprovido de fé. É esse mundo secular e sem fé, onde Mammon governa, o que Spengler viu como a época do declínio, mas talvez também como uma de prelúdio de revolta contra o "dinheiro" e de uma "Segunda Religiosidade".